Quinta Lição

Publicado: 21, junho, 2009 em Psicanálise
Tags:, , , ,

E esta lição é a que encerra as Cinco lições de psicanálise, texto de autoria freudiana. Pois bem, Freud retoma a quarta lição no que tange as teorias da sexualidade, mais especificamente a sexualidade infantil, e diz que o adoecimento acontece quando falta a satisfação das necessidades sexuais, seja por obstáculos externos ou por ausência de adaptação interna. Se lembrarmos as lições anteriores e entendermos que estas necessidades não satisfeitas serão reprimidas, entenderemos que os sintomas mórbidos contém ou certa parcela de sua atividade sexual ou ela inteira, sendo uma maneira de satisfação substitutiva. Duas coisas acontecem: o ego se recusa a desfazer a repressão que o fez esquivar da disposição originária e o instinto sexual não renuncia essa satisfação substitutiva. E assim será enquanto houver dúvida de que a realidade pode oferecer algo melhor.

Por este estilo de pensamento é que se supõe que as neuroses têm origem sexual. Na prática clínica de Freud, ele nos diz ter confirmado a afirmação anterior a partir da observação daquilo que ele chamou de transferência. Bem, a transferência é definida neste texto como a série de sentimentos que o paciente deposita em seu médico que, por precariedade de contato com a realidade, só podem advir das fantasias do paciente. Sobre as fantasias, Freud diz serem próprias da natureza constitucional da personalidade além de estarem contidos nelas muitos dos elementos reprimidos. Nós, insatisfeitos com a realidade, mantemos, então, esta vida de fantasias em que nos comprazemos em compensar as deficiências desta mesma realidade e encontramos aí um campo fértil para a realização de nossos desejos que foram reprimidos.

De volta para a transferência. Dito de outra forma, a transferência seria os sentimentos dos pacientes em relação ao seu médico mesmo que o médico não tenha dado causa a eles.  Por aí, se conclui que estes sentimentos são parte das fantasias do paciente que foram tornadas inconscientes. Este trecho de sentimentos (sexuais) que o paciente não pode mais recordar é revivido pela transferência e o paciente se convence da existência e da força deles. O exemplo que Freud nos traz compara o sintoma a um precipitado químico de eventos amorosos anteriores que só na alta temperatura da transferência é que pode se dissolver. O resultado seria outros produtos psíquicos. O médico seria uma espécie de fermento que acelera o processo por atrair para si temporariamente a energia afetiva do paciente.

Freud vai além. Afirma que a psicanálise não cria a transferência, mas que antes ela acontece em todas as relações humanas, o que inclui a relação do paciente com o seu médico. O que a psicanálise faz é tornar a transferência acessível para a consciência do paciente. E ainda, a transferência é a mola que faz a psicanálise ser possível.

Existe certo temor de que este processo possa causar danos às aspirações morais por trazer para a consciência os impulsos sexuais reprimidos. As feridas se notam, mas receia-se tocar nelas. De fato, não se pode tocar nas feridas para que apenas se produza dor. Mas acontece que os médicos tocam as feridas para que se conheça a moléstia e seja proporcionada a cura. Do mesmo modo, o psicanalista deve tocar as feridas, desde que desempenhe o papel de levar o tratamento a bom termo e o estado mórbido seja suprimido. O medo de que possa haver qualquer dano quando os impulsos sexuais se tornam conscientes não faz assim tanto sentido se nos lembrarmos do texto da Lição um. O rapaz que foi posto para fora da platéia passou a incomodar aos participantes da conferência mais do que quando esteve presente entre os participantes. Ou seja, o conteúdo que está inconsciente traz mais incômodo que se fosse trazido para a consciência, lugar em que facilmente enfraqueceria.

Com isto, teremos três saídas para os impulsos agora tornados conscientes. Ou a antiga repressão será substituída por um julgamento de condenação e aquele impulso será dominado pelos mecanismos conscientes. Ou os impulsos descobertos passam a ter a utilização que lhes convinham e que deveriam ter sido anteriormente utilizados desta maneira. Ou, por último, os impulsos encontram alvos diferentes e mais elevados em que possam se satisfazer e que talvez não seja de ordem sexual. A este processo se dá o nome de sublimação.

Por fim, Freud alerta que não deve ser parte dos planos da humanidade extirpar os impulsos de nossa convivência. A metáfora que ele faz é com a literatura alemã e a história dos cidadãos de Schilda e cavalo deles que produzia muitíssimo, mas também muitíssimo consumia em ração. As pessoas quiseram diminuir a quantidade de ração dada ao cavalo e manter a mesma produção. Diminuíram gradativa e diariamente a quantidade de ração e notaram que a produtividade dele se mantinha, até que chegaram ao ponto de lhe darem apenas um grão de ração. No dia seguinte, deveriam retirar também este único grão e o cavalo trabalharia sem ração alguma. No entanto, o animal amanheceu morto e ninguém sabia explicar porquê. Palavras do Freud: “Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum”.

Eu diria que a quinta lição é a transferência. A definição de tranferência, tal qual vários outros termos freudianos, variou muito ao longo da obra deste autor. No entanto, a definição aqui trazida dá uma boa idéia de como se procede um tratamento em psicanálise e abre as portas para o que será nomeado de interpretação.

Primeira Lição ◊ Segunda Lição ◊ Terceira Lição ◊ Quarta Lição

About these ads
comentários
  1. tereza disse:

    Parabéns, desejo que mais pessoas se capacitem e façam como vc que está abrindo portas para novas interpretações.

    • Marq disse:

      Estas cinco lições do meu site são parte de um curso sobre Freud que dei para profissionais de saúde. Foi mesmo muito produtivo e espero ter aberto novas portas para eles. Para mim se abriram.

      Vi que você é do verdestrigos. É um site que visito tem muitos anos! Li muito Calligaris nele. Fico feliz de recebê-la aqui.

  2. […] Os resumos das Cinco Lições de Freud podem ser lidos em Primeira Lição Segunda Lição Terceira Lição Quarta Lição Quinta Lição […]

  3. […] Lição ◊ Terceira Lição ◊ Quarta Lição ◊ Quinta Lição […]

  4. […] Lição ◊ Terceira Lição ◊ Quarta Lição ◊ Quinta Lição […]

  5. […] Lição ◊ Segunda Lição ◊ Terceira Lição ◊ Quinta Lição […]

  6. […] Lição ◊ Segunda Lição ◊ Quarta Lição ◊ Quinta Lição […]

  7. Isis Yume disse:

    Parabéns pelo ótimo texto. Seu trabalho foi de grande ajuda, e um ótimo exemplo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s